A Noite (1979)
No princípio não havia noite
não se sabia o que era noite
havia somente luz e era tão intensa nos trópicos
que se tinha a sensação de passar períodos de azul
de vermelho, de verde
era tão forte a luz que as pessoas tinham
a sensação de flutuar
dentro das cores
dentro das plantas
tudo o que hoje não fala, falava
intercomunicava-se entre si
as árvores se falavam
estimulavam o pensamento com suas flores
não se sabia o que era negro
existiam somente as cores que emanavam da luz
distribuíam energia-pensamento
mas não se dormia
o homem não conhecia o que era cansaço
mas não conhecia também a ternura do repouso
o silêncio e a música
porque a música nasceu com o silêncio e com a noite
a música nasceu com a consciência dos primeiros ritmos
e com a noite nasceu o primeiro canto.
Boto (1985)
Quando em suas noites de fogo Yaci acorda espantada,
Boto se transforma
em guerreiro e invade seu leito.
As vozes abafads
no escuro, cresce o silêncio, serpente ele se enrosca
e se enrodilha no seu corpo
pouco a pouco sobe sinuosamente,
entre carícias amacia as asperezas das escamas
Entre seus longos cabelos surge dizendo: meu amor.
É pedra, é água.
Onde é seu ninho?
Navegando entre as folhas,
arcos e ciprestes lhe atinge em delírio
tirando-lhe o respiro: nuvem ela, polpa de fruta madura,
odores selvagens, cores.
Pensamentos irracionais
exaltam seu corpo:
seus sentidos sete pulos de gato lascivo,
se interroga, pensa e soluça entre suas tranças.
Yaci abraça as suas coxas douradas.
Muito longe começa o teu rio, Boto.
Em desarmonia se cruzam olhares intensos.
Ela busca força em suas entranhas.
Garras arranham as ancas, as pernas, as costas
Boto:
vingança desejada
Escuta seu nome por ele sussurrado:
Yaci.
Boto sem remorso fere e ela se arrebata.
Procura-lhe em noites sem descanso
e nos dias seguintes chega inesperado.
Ele surge e ela se exalta.
Cavalos, ninhos, pássaros, borboletas
madeiras, serras, galhos, esferas, rios e riachos.
Boto metade água
metade peixe e metade homem.
Quando ama toca o fundo do rio e cavalga arrastado
pelas águas, inunda os arbustos entre ilhas.
Yaci estreita entre seus braços as escamas
peixe que foge, sabor de água e frutos do mar,
Boto peixe sal-sol-sal.
Vida. Respiro.
Arráias borboletas (1982)
Ubirajara partiu do povoado.
O desejo que sentia por Yací
estava lhe fazendo morrer: dois fincados no céu
arráias borboletas.
A floresta saindo da sua vida, através do rio.
O rio escorre a pele d'água, o rio não é água,
o rio é um serpente, é o mar;
reflete o que toca, muda de cor, o rio não é.
É o que toca.
Nasce com a vida: eu quero viver.
O chão é feito de imagens, de triângulos e quadrados.
E a minha estória contigo acabou, sacudindo as asas
que ainda envolvem nossos abraços
para ver como são tuas carícias quando chegar o jaguar.
A paixão continua arrastando sobreavisos de luxúria,
uma luxúria insana multiplicada pelo frio pensamento.
Desgastada a voz em penumbras,
distúrbios de cristais
demência o contato silencioso de tua pele.
Voando cabeça erguida, na vastidão da floresta.
Entre as árvores, pelos igarapés, dos igapés,
ás várzeas tranqüilas
sentiu-se o estrondo da Pororoca:
encontro entre o rio e o mar.
O mar é um grande lago, um lago imenso.
domingo, 20 de julho de 2008
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