domingo, 20 de julho de 2008

Redondilhas - Luís de Camões

Amor cuja providência

a este moto alheio:
Sem vós e com meu cuidado
olhai com quem, e sem quem.


Amor, cuja providência
foi sempre que não errasse,
porque n'alma vos levasse,
respeitando o mal de ausência
quis que em vós me transformasse.
E vendo-me ir maltratado,
eu e meu cuidado sós,
proveio nisso, de atentado,
por não me ausentar de vós,
sem vós e com meu cuidado.

Mas est'alma que eu trazia
porque vós nela morais,
deixa-me cego, e sem guia;
que há por milhor companhia
ficar onde vós ficais.
Assi me vou de meu bem
onde quer a forte estrela,
sem alma, que em si vos tem,
co mal de viver sem ela:
olhai com quem, e sem que

Amor que em meu pensamento

Glosa

a este moto seu (acróstico):
A morte, pois que sou vosso,
não na quero, mas se vem,
[h]a-de ser todo meu bem.


Amor, que em meu pensamento
com tanta fé se fundou,
me tem dado um regimento
que, quando vir meu tormento,
me salve com cujo sou.
E com esta defensão,
com que tudo vencer posso,
diz a causa ao coração:
não tem em mim jurdição
A morte, pois que sou vosso.

Por exprimentar um dia
Amor se me achava forte
nesta fé, como dizia,
me convidou com a morte,
só por ver se a tomaria.
E, como ele seja a cousa
onde está todo o meu bem,
respondi-lhe (como quem
quer dizer mais, e não ousa):
não na quero, mas se vem...

Não disse mais, porque então
entendeu quanto me toca;
e se tinha dito o não,
muitas vezes diz a boca
o que nega o coração.
Toda a cousa defendida
em mais estima se tem:
por isso é cousa sabida
que perder por vós a vida
[h]a-de ser todo meu bem.

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